Por que deixei o imobiliario corporativo e apostei tudo na IA
Na manha seguinte ao fechamento da aquisicao pela Intrum, sentei no meu escritorio na Alemanha olhando para um manual de integracao de 47 paginas. A pagina 12 detalhava os novos requisitos de relatorios. Registros diarios de atividade. Revisoes semanais de pipeline. Paineis mensais com detalhamento ate o nivel de ligacoes individuais.
Contei os campos obrigatorios por corretor por dia. Trinta e oito. Trinta e oito campos que precisavam ser preenchidos antes de o sistema liberar a proxima tela.
Eu tinha acabado de vender uma empresa que construi ao longo de quase 15 anos. Deveria estar aliviado. Em vez disso, estava enjoado. Porque reconheci o que vinha — eu mesmo tinha construido uma versao mais leve disso. E sabia o que aquilo faria com as pessoas que levei anos recrutando e treinando.
O que a gestao corporativa faz com uma imobiliaria
Nao vou fingir que a aquisicao foi um erro. Nao foi. Vender a Assetgate para a Intrum foi uma decisao empresarial legitima. Sao uma empresa seria. O acordo foi justo. Mas no momento em que uma imobiliaria vira uma linha num balanco de uma corporacao financeira, as prioridades se invertem.
Uma imobiliaria independente existe para fechar negocios. Uma imobiliaria corporativa existe para produzir relatorios que provem que esta fechando negocios. A diferenca parece pequena. E tudo.
Em seis meses, meu melhor corretor — 18 negocios por ano, relacoes que duravam decadas — caiu para 11. Nao porque esqueceu como vender. Porque as segundas e tercas dele agora eram consumidas por entradas no sistema e reunioes de acompanhamento. Tres dias por semana para vender. Cinco dias para documentar.
Em um ano, tres dos meus melhores profissionais tinham saido. Nao para concorrentes. Nao por mais dinheiro. Sairam do setor inteiro. Um virou consultor. Outro abriu um restaurante. Um terceiro me disse, de pe no estacionamento no ultimo dia dele, “Jorg, virei corretor porque amo conversar com gente. Faz tres semanas que nao falo com um cliente.”
Aquela conversa no estacionamento mudou minha vida.
O momento em que decidi sair
Nao foi dramatico. Nao teve explosao em reuniao de diretoria nem demissao publica. Foi numa terca a noite no meu escritorio de casa, revisando os numeros trimestrais.
A receita tinha caido 22% em relacao ao ano anterior a aquisicao. Nao porque o mercado estava ruim — o mercado estava bem. Porque os corretores estavam mais lentos. O pipeline estava mais magro. A energia era diferente. As pessoas estavam cumprindo protocolo, marcando caixas, entregando relatorios e, de alguma forma, fazendo menos trabalho real do que nunca.
Abri uma planilha que eu mantinha em sigilo — rastreando como meus corretores dividiam o tempo antes e depois da integracao. Antes: cerca de 40% da semana em atividades com clientes. Depois: 23%. Os outros 77% tinham sido engolidos pela infraestrutura de relatorios corporativos.
Fiquei olhando para aqueles numeros e pensei: eu construi algo bom. Contratei gente boa. Criei um ambiente onde quem fecha negocios podia fechar. E agora estou vendo um sistema de relatorios devorar tudo isso.
Na manha seguinte, comecei a planejar minha saida.
Por que IA e nao aposentadoria
Eu poderia ter ido embora. A aquisicao me deu opcoes. Poderia ter comprado um barco, me mudado para algum lugar quente e passado meus dias sem pensar em CRMs e requisitos de relatorios. As pessoas me diziam que deveria. “Voce mereceu,” falavam. “Descansa.”
Mas o negocio e o seguinte: quando voce viu um sistema destruir gente boa por tres decadas, nao da pra desaprender. Todo corretor com quem eu conversava, em qualquer mercado, descrevia a mesma frustracao. Alemanha, Espanha, Portugal, America Latina — idiomas diferentes, regulamentacoes diferentes, mesma reclamacao: “Nao tenho tempo pra fazer meu trabalho de verdade.”
E entao veio a IA. Nao a versao do slogan — nao adesivos de “potencializado por IA” nos mesmos paineis de sempre. IA de verdade. Modelos capazes de ler contexto, entender intencoes, manter conversacoes, antecipar necessidades. Modelos que podiam fazer o trabalho de preparacao no qual meus corretores estavam se afogando.
Vi a possibilidade na hora. Nao porque sou um cara de tecnologia — nao sou. Sou um cara do imobiliario. Mas passei 15 anos vendo gente talentosa soterrada em burocracia, e de repente existia uma tecnologia capaz de lidar com essa burocracia sem exigir que ninguem digitasse num unico campo.
Isso nao e mais uma funcionalidade. E uma reescrita fundamental de como imobiliarias funcionam.
Entao, em vez de um barco, apostei o que ganhei na venda em construir isso.
Dez investidores disseram nao
Apresentei a Leon & Vera para dez investidores de PropTech. Expliquei a tese: corretores estao se afogando em burocracia, a IA pode fazer o trabalho de preparacao, o unico trabalho do corretor deveria ser conversar com clientes e fechar negocios. Construir para quem fecha, nao para o supervisor.
Todos disseram nao.
As perguntas deles me disseram tudo. “Que analitica o gestor recebe?” “Como voce rastreia o desempenho do corretor?” “Como e o painel?” “Como o dono da franquia monitora a equipe?”
Nenhum — nenhum deles — perguntou: “Quanto tempo o corretor economiza?” ou “Quantos negocios a mais um corretor pode fechar?”
Estavam pensando como os gestores que compram software. Nao como os corretores que sofrem usando. Queriam as mesmas ferramentas de vigilancia com uma roupa nova.
Eu nao estava propondo visibilidade melhor. Estava propondo a eliminacao total do imposto da visibilidade.
Os 10 disseram nao. Acho que isso diz tudo sobre como o setor pensa sobre corretores.
Apostar seu proprio dinheiro muda como voce constroi
Quando voce levanta capital de risco, responde a investidores. As metricas deles, os prazos deles, as suposicoes deles sobre como deveria ser o software imobiliario. Essas suposicoes sao a razao pela qual PropTech continua construindo a coisa errada.
Quando voce aposta seu proprio dinheiro, responde a uma unica pergunta: isso realmente ajuda o corretor?
Nao tenho um roadmap de paineis. Nao tenho uma matriz de funcionalidades projetada para impressionar donos de franquias em salas de demo. Tenho um unico teste: o corretor que perdi naquele estacionamento — o que estava ha tres semanas sem falar com um cliente — esse produto devolveria o trabalho dele?
A diferenca entre dinheiro de investidor e seu proprio dinheiro e simples: dinheiro de investidor otimiza para quem compra o software. Seu proprio dinheiro otimiza para quem usa.
O que eu diria pra versao de mim sentada naquela demo em Estocolmo
Se pudesse voltar a 2019, assistindo aquela demo de CRM, sabendo o que sei agora, eu levantaria e perguntaria uma coisa so:
“Me mostra a tela onde o corretor nao precisa estar.”
Porque e isso. A melhor ferramenta para um corretor e aquela que ele mal toca. A que encontra o proximo lead, prepara a conversa e entrega o contexto — tudo antes de o corretor abrir os olhos de manha.
Sai do imobiliario corporativo porque vi a infraestrutura de relatorios esmagar os melhores profissionais que ja contratei. Apostei tudo na IA porque, pela primeira vez em 30 anos, existe a tecnologia pra devolver aos corretores os 72% do tempo deles que o software de vigilancia roubou.
Dez investidores acharam que eu era louco. Talvez estejam certos sobre o risco. Mas estao errados sobre os corretores. Corretores nao querem paineis melhores. Querem o tempo de volta. Querem fazer o trabalho pra qual foram contratados.
Eu nao conseguia consertar isso de dentro de uma corporacao. Entao sai. E apostei tudo o que tinha na crenca de que a proxima era da tecnologia imobiliaria comeca com uma pergunta simples: o que voce construiria se o tempo do corretor fosse a unica coisa que importa?
Continuo respondendo essa pergunta todo dia. Mas pelo menos agora estou fazendo a pergunta certa.
Jörg Olbing