Dirigi uma imobiliaria por 15 anos. Isso e o que eu nao faria de novo
Um amigo meu abriu uma imobiliaria ano passado. Me ligou pedindo conselho. “Jorg, voce fez isso por 15 anos. O que eu preciso saber?”
Eu parei. Porque a resposta honesta nao e “isso e o que funcionou.” A resposta honesta e uma lista de coisas que fiz religiosamente por anos e que jamais, sob nenhuma circunstancia, faria de novo. Coisas que o setor ainda trata como verdade absoluta. Coisas que consultores ainda vendem como melhores praticas.
Dirigi a Assetgate na Alemanha por quase 15 anos, cresci ate o ponto em que a Intrum — um grupo sueco de servicos financeiros — adquiriu a empresa. Por qualquer metrica convencional, funcionou. Mas metricas convencionais escondem muito estrago.
Aqui esta o que eu me recusaria a repetir.
Registro obrigatorio no CRM de cada interacao do corretor
Eu exigia que cada corretor registrasse cada ligacao, cada reuniao, cada visita, cada follow-up. Minimo 15 entradas por dia. Sem excecao. Achava que era disciplina. Achava que era responsabilidade. Achava que era assim que se construia um negocio baseado em dados.
Era assim que eu transformava meus melhores profissionais nos digitadores mais caros da Alemanha.
Os corretores que se destacavam vendendo — os que liam uma sala, criavam conexao na hora, fechavam uma exclusividade com um proprietario hesitante tomando um cafe — eram os mesmos que detestavam registrar. Nao porque eram preguicosos. Porque cada minuto documentando uma conversa era um minuto que nao podiam dedicar a proxima. O registro nao os ajudava a fechar. Me ajudava a rastrear.
Eu estava construindo um sistema de vigilancia e chamando de ferramenta de vendas.
Se abrisse uma imobiliaria amanha, nao exigiria uma unica entrada manual no CRM. Nenhuma. A questao nao e se voce precisa de dados — e se seus corretores devem ser quem os cria.
Reunioes semanais de pipeline
Toda segunda de manha. Noventa minutos. Cada corretor apresentava seu pipeline. Cada negocio revisado. Cada etapa questionada. Parecia produtivo. Parecia lideranca. Na verdade eram 90 minutos de teatro que consumiam a manha de vendas mais valiosa da semana.
O que realmente acontecia nessas reunioes: os corretores passavam o domingo a noite maquiando seus pipelines pra ficarem apresentaveis. Moviam negocios para etapas que nao tinham conquistado pra evitar perguntas. Inventavam proximos passos para negocios travados porque admitir que um negocio morreu significava admitir fracasso na frente de toda a equipe. O pipeline virou ficcao mantida pra uma plateia de um so — eu.
Enquanto isso, segunda de manha entre 8 e 10 e quando proprietarios verificam ligacoes perdidas do fim de semana. E quando anuncios novos aparecem nos portais. E quando os retornos de ligacao das visitas da semana passada vencem. Meus corretores estavam sentados numa sala de reunioes fazendo teatro em vez de estar la fora vendendo.
Nunca mais faria uma reuniao de pipeline. Se preciso saber como o negocio esta indo, deveria poder ver isso sem obrigar cada corretor a parar de trabalhar pra me contar.
Contratar por “encaixe cultural” em vez de capacidade de fechamento
Essa doi admitir porque eu acreditava nisso profundamente. Contratava gente organizada, articulada, pontual e profissional. Jogadores de equipe. Entusiastas de CRM. Pessoas que apareciam na entrevista com um plano de negocios impresso e um plano de carreira de cinco anos.
Uma vez descartei uma corretora — uma mulher que chegou dez minutos atrasada na entrevista com manchas de cafe na jaqueta. Ela estava fechando 22 negocios por ano na imobiliaria anterior. Vinte e dois. Meu melhor performer estava em 18. Mas nao parecia que ela “se encaixava.”
Ela foi pra um concorrente. Continuou fechando 22 negocios por ano. Minha contratacao por “encaixe cultural” fez uma media de 8 e saiu em dois anos pra um cargo de treinamento corporativo.
A verdade desconfortavel: os melhores fechadores costumam ser desorganizados. Priorizam conversas em vez de administracao. Sao impacientes com processos porque entendem intuitivamente que processo e friccao entre eles e o proximo negocio.
Quando voce otimiza por encaixe cultural numa imobiliaria, na verdade esta otimizando por conformidade. E conformidade nao fecha negocios.
Investir em programas de treinamento em vez de remover obstaculos
Gastei dinheiro serio em treinamento. Workshops de metodologia de vendas. Seminarios de negociacao. Cursos de certificacao em CRM. Palestrantes motivacionais. O orcamento anual de treinamento era maior que as comissoes de alguns corretores.
O que nunca medi: se alguma coisa daquilo fazia alguma diferenca.
Um ano, fiz um experimento por acidente. Cortes no orcamento me forcaram a cancelar o programa de treinamento do quarto trimestre. Sem workshops. Sem seminarios. Nada. Esperava uma queda de desempenho. Em vez disso, o Q4 foi nosso melhor trimestre do ano. Por uma margem significativa.
Por que? Porque as duas semanas que meus corretores teriam passado em salas de treinamento foram passadas com clientes. A habilidade que mais precisavam nao era uma nova tecnica de negociacao — era tempo.
O corretor que foi de 6 para 14 negocios num ano na Assetgate nao participou de nenhum programa de treinamento. Colocamos um assistente pra cuidar da burocracia dele. Mesmas habilidades. Mesmo mercado. Mesmo corretor. So 25 horas por semana devolvidas pra vender de verdade. Isso e o problema dos 72% ao contrario — a prova do que acontece quando voce devolve o tempo roubado.
Tratar assinaturas de portais como estrategia de captacao
Por anos, mantive assinaturas premium em todos os portais importantes. Posicionamentos de destaque. Selo de corretor destacado. O gasto mensal com portais era impressionante.
E cada lead desses portais chegava como uma consulta fria de um comprador. Nao de um vendedor. Compradores navegando. Compradores que tinham contatado outros seis corretores sobre o mesmo anuncio.
Eu estava pagando uma fortuna pelo privilegio de ser um de seis corretores que um comprador ligou sobre o anuncio de outra pessoa. Isso nao e captacao. E loteria.
A captacao real — a que constroi uma imobiliaria — e encontrar proprietarios antes de eles anunciarem. Identificar donos com sinais de motivacao. Ser a primeira ligacao, nao a sexta. Os portais nunca entregaram isso.
Se abrisse uma imobiliaria amanha, portais seriam um gasto de marketing, nao uma estrategia. A estrategia seria encontrar proprietarios diretos que ainda nao publicaram. Esse e o jogo que da retorno composto.
Construir camadas de gestao antes de a equipe precisar
Quando a Assetgate chegou a 20 corretores, contratei dois lideres de equipe. Quando chegamos a 30, adicionei um gerente regional. Na epoca da aquisicao, tinhamos mais camadas de gestao do que uma empresa com o dobro do tamanho.
Cada camada adicionou requisitos de relatorio. Cada gestor precisava de atualizacoes semanais dos seus subordinados diretos. A estrutura que construi pra “apoiar” a equipe virou a maior carga dela.
A conta que nunca fiz ate ser tarde demais: 30 corretores, cada um dedicando 5 horas por semana a relatorios de gestao. Sao 150 horas por semana — quase quatro pessoas em tempo integral — consumidas por comunicacao interna. Nao vendendo. Nao prospectando. Comunicando pra cima pra que gestores pudessem comunicar pra cima pra mim.
Premiar atividade em vez de resultados
Esse foi meu pior habito e o mais dificil de largar. Rastreava ligacoes feitas, reunioes realizadas, captacoes, visitas. Publicava rankings. Dava bonus por volume de atividade. O corretor que fazia mais ligacoes recebia reconhecimento na reuniao mensal.
O corretor que fazia mais ligacoes era normalmente o que tinha as conversas mais curtas, a menor taxa de conversao e o pipeline mais fraco. Mas os numeros dele ficavam impressionantes numa planilha, entao eu celebrava.
Enquanto isso, a corretora que fazia 12 ligacoes por dia — metade do “lider” — mas dedicava 30 minutos por conversa construindo relacoes genuinas, estava fechando o dobro de negocios em silencio. Os numeros de atividade dela eram mediocres. Os resultados, excepcionais. Mas num sistema que rastreava inputs, ela era invisivel.
Metricas de atividade sao metricas de vaidade disfaracadas de produtividade. Medem movimento, nao progresso.
Se dirigisse uma imobiliaria de novo, rastrearia exatamente duas coisas: captacoes assinadas e negocios fechados. Todo o resto e ruido.
O que tudo isso tem em comum
Cada erro dessa lista compartilha a mesma causa raiz: eu otimizei pra MINHA visibilidade em vez da efetividade dos meus corretores.
Reunioes de pipeline me davam visibilidade. Registro no CRM me dava dados. Camadas de gestao me davam controle. Rastreamento de atividade me dava metricas. Programas de treinamento me davam a sensacao de que estava investindo nas pessoas. Assinaturas de portais me davam a aparencia de uma estrategia de captacao.
Nada disso — nenhuma coisa dessa lista — ajudou um unico corretor a fechar um unico negocio mais rapido.
O setor ainda nao aprendeu isso. Congressos continuam pregando gestao de pipeline. Consultores continuam vendendo otimizacao de CRM. Sistemas de franquia continuam exigindo relatorios semanais. Toda a infraestrutura de gestao imobiliaria esta construida sobre a suposicao de que se voce conseguir ver o que os corretores estao fazendo, eles vao fazer melhor.
Nao vao. Vao fazer o que o sistema incentiva: atuar pra plateia, marcar caixas, alimentar a maquina. E o trabalho real — as conversas, os relacionamentos, os fechamentos — acontece no tempo que sobra.
Dirigi uma imobiliaria por quase 15 anos. A melhor coisa que posso fazer com essa experiencia e te dizer exatamente quais partes estavam erradas. Cada item dessa lista me custou corretores, negocios e anos que nao volto a ter. O setor pode continuar tratando tudo isso como boa pratica. Eu ja sei mais agora.
Jörg Olbing