Construimos as ferramentas erradas por 30 anos — Aqui esta a prova
Eu estava sentado numa sala de reunioes em Estocolmo em 2019, assistindo a uma demo de CRM que custava mais por usuario do que alguns dos meus corretores ganhavam de comissao naquele mes. O vendedor estava empolgado. Ficava clicando em telas — visualizacao de pipeline, mapas de atividade, rankings de equipe, relatorios de compliance automatizados.
Quarenta e cinco minutos depois, fiz uma unica pergunta: “Qual dessas telas ajuda meu corretor a conseguir o proximo imovel para captar?”
Silencio. Depois, um desvio para o modulo de analitica.
Aquele momento resumiu 30 anos de fracasso PropTech numa unica pausa.
O pecado original do software imobiliario
Toda ferramenta construida para o mercado imobiliario nas ultimas tres decadas partiu da mesma premissa errada: a pessoa mais importante numa imobiliaria e quem a administra.
Parece razoavel ate voce ver o que acontece no dia a dia. Eu dirigi a Assetgate na Alemanha por quase 15 anos. Contratei gente brilhante — pessoas capazes de ler uma sala, entender a motivacao de um proprietario em dois minutos e fechar uma exclusividade tomando um cafe. Depois entreguei a eles um software que exigia 40 minutos de entrada de dados antes de poderem sair do escritorio.
As ferramentas nunca foram feitas para eles. Foram feitas para mim. Visibilidade de pipeline. Acompanhamento de atividades. Paineis de controle. Documentacao de compliance. Cada funcionalidade respondia a uma pergunta que EU tinha como gestor, nao a um problema que meus corretores enfrentavam como vendedores.
E eu nao sou excecao. Sou a regra. Todo dono de imobiliaria com quem conversei na Alemanha, Espanha e America Latina segue o mesmo padrao: compra a ferramenta que gera os melhores relatorios e depois se pergunta por que a equipe detesta usa-la.
Trinta anos resolvendo o problema errado
Deixa eu te mostrar a linha do tempo, porque o padrao e tao claro que chega a ser constrangedor.
Anos 90: bancos de dados de contatos. O mercado recebeu suas primeiras ferramentas digitais — agendas glorificadas. Guardar contatos, registrar ligacoes, imprimir etiquetas. A proposta de valor: “Nunca mais perca um numero de telefone.” O resultado real: os corretores agora tinham que digitar contatos no computador E manter a agenda de papel, porque nao confiavam no software. Ganho liquido de produtividade: negativo.
Anos 2000: a era do CRM. Ferramentas inspiradas no Salesforce inundaram o imobiliario. Etapas de pipeline, acompanhamento de negocios, registro de atividades. A proposta de valor: “Veja todo o seu negocio de uma vez.” O resultado real: os gestores podiam ver o negocio. Os corretores passavam as manhas alimentando a maquina em vez de ligar para potenciais clientes.
Anos 2010: integracao com portais e automacao. As ferramentas comecaram a puxar anuncios de portais como OLX e ZAP Imoveis, cruzar compradores automaticamente, enviar campanhas de gotejamento. A proposta de valor: “Trabalhe de forma mais inteligente.” O resultado real: mais funcionalidades significavam mais configuracao, mais treinamento, mais coisas que podiam quebrar. A implementacao media de um CRM imobiliario leva de 3 a 6 meses. Quando finalmente funciona, metade da equipe ja criou atalhos e a outra metade desistiu.
Anos 2020: IA colada na arquitetura antiga. “Agora com IA!” espalhado por todo site PropTech. Chatbots grudados nos mesmos CRMs. Analitica preditiva sobre os mesmos paineis. A proposta de valor: “Tudo potencializado por IA.” O resultado real: um chatbot que ainda exige que o corretor faca login no mesmo sistema, navegue pelas mesmas abas e preencha os mesmos campos — so que agora tem um icone de IA no canto.
Tres decadas. Bilhoes em capital de risco. E a pergunta fundamental — “Como ajudo a pessoa que realmente fecha negocios?” — nunca foi o ponto de partida.
O problema da compra que ninguem menciona
Isso e o que torna a situacao tao persistente: quem compra e quem usa o software imobiliario quase nunca sao a mesma pessoa.
O dono da franquia, o diretor regional, o lider de equipe — eles assinam o contrato. Avaliam o produto numa sala de demos, olhando paineis e relatorios. Perguntam sobre integracoes, acesso a API, funcionalidades de gestao de equipe. Estao comprando visibilidade e controle.
O corretor — a pessoa que vai usar essa ferramenta oito horas por dia — nunca esta nessa sala. Ninguem pergunta a ele o que precisa as 9 da manha numa terca-feira para fechar mais negocios nesse mes.
Eu fui esse comprador por anos. Avaliava ferramentas com base no que me ajudava a GERENCIAR a imobiliaria, nao no que ajudava meus corretores a VENDER.
Por isso o problema dos 72% persiste. O setor continua construindo para supervisores enquanto os corretores se afogam em burocracia.
O que trinta anos de ferramentas erradas realmente custam
O prejuizo nao sao apenas orcamentos de software desperdicados. E cumulativo e humano.
Fuga de talentos. Os melhores corretores — os que tem opcoes — vao embora primeiro. Fazem a conta: 30 horas por semana em burocracia, talvez 15 vendendo de verdade. Perdi meu melhor corretor depois de quase 20 anos juntos. Nao foi para um concorrente. Nao foi por dinheiro. Os relatorios esmagaram ele.
Filtro de mediocridade. Quando suas ferramentas punem a velocidade e premiam o cumprimento, voce seleciona um tipo especifico de corretor. Nao o cacador. Nao o fechador. O administrador. Com o tempo, o DNA da sua equipe muda. Voce acaba com uma imobiliaria cheia de gente excelente usando o CRM e mediana vendendo.
Paralisia de inovacao. Cada nova ferramenta precisa se integrar com a pilha antiga. O CRM vira uma peca estrutural — nao da para tirar sem que toda a operacao perca sua espinha dorsal de dados.
O imposto dos 72%. Aproximadamente 72% do tempo de trabalho de um corretor e dedicado a tarefas que nao tem nada a ver com vender. Esse numero nao apareceu da noite pro dia. Foi se acumulando ao longo de 30 anos de ferramentas que criavam trabalho em vez de elimina-lo.
Como seriam as ferramentas certas
Passei dois anos depois de vender a Assetgate pensando nessa pergunta antes de comecar a construir qualquer coisa. Nao “quais funcionalidades o proximo CRM deveria ter” — essa pergunta ja esta errada.
A pergunta certa e: o que um corretor precisa ter na frente dele as 8 da manha numa segunda-feira para ter a melhor semana da vida dele?
A resposta e constrangedoramente simples. Ele precisa saber para quem ligar. Por que aquela pessoa pode estar pronta para vender. E o que dizer quando atender. Todo o resto e carga administrativa.
O trabalho de um corretor e ter conversas que terminem em exclusividades assinadas. Ponto final. Qualquer ferramenta que nao torne essa atividade mais rapida e a ferramenta errada.
A prova esta nas saidas
Quer saber se 30 anos de ferramentas PropTech funcionaram? Olha o que aconteceu com os corretores.
A rotatividade de corretores no imobiliario esta entre as mais altas dos servicos profissionais. A “escassez de talentos” da qual todo mercado reclama nao e escassez — e uma crise de retencao causada por pedir a vendedores talentosos que dediquem tres quartos do tempo a atividades que nao tem nada a ver com vender.
As ferramentas nao falharam porque a tecnologia era ruim. A tecnologia muitas vezes era impressionante. Falharam porque responderam a pergunta errada. Perguntaram “Como damos visibilidade aos gestores?” em vez de “Como devolvemos o tempo aos corretores?”
Trinta anos. Bilhoes de reais. E o corretor continua digitando em campos as 5 da tarde numa sexta em vez de ir pra casa.
Essa e a prova. Nao esta num painel. Nao esta num relatorio. Esta nas mesas vazias dos fechadores que cansaram de ser digitadores.
Apostei meu proprio dinheiro — o da saida da Assetgate — na tese de que existe outro jeito de construir. Nao um CRM melhor. Nao um painel mais bonito. Ferramentas que comecam pela terca de manha do corretor, nao pela reuniao de segunda do gestor. Precisei perder meu melhor corretor pra uma planilha pra enxergar isso com clareza. Mas agora que vi, nao consigo mais desver. E voce tambem nao vai.
Jörg Olbing