Por Que os AVM Mentem: 4 Casos de Avaliacao Automatica
Uma proprietaria em Sao Paulo me mandou uma captura no trimestre passado e me pediu pra confirmar um numero. O apartamento dela de um quarto, segundo uma ferramenta popular de avaliacao automatica, valia 1.450.000 reais. O mesmo predio, quarto andar, planta identica, tinha sido vendido tres semanas antes por 1.220.000. Ela nao acreditou em mim quando eu disse a verdade. Acreditou no algoritmo.
Essa e a conversa em que cada corretor entra agora. O proprietario fez a licao de casa — digitou o endereco num site de avaliacao gratuita e recebeu um numero. Esse numero raramente e preciso. Em alguns casos e dramaticamente errado. E o proprietario, sentado a mesa da cozinha esperando voce chegar, ja ancorou as expectativas dele nele.
O modelo de avaliacao automatica nao e mau. E uma primeira aproximacao util em mercados com dados profundos e recentes de transacoes comparaveis. O problema e que o setor imobiliario esta cheio de casos em que uma ou mais dessas condicoes falham — e o AVM nao sabe que falharam. Ele simplesmente produz um numero confiante, com uma faixa arrumada, e o vendedor acredita que e a verdade.
O modelo e matematicamente correto e praticamente inutil em quatro casos especificos
Existe um erro de categoria embutido no jeito que os consumidores leem os resultados de AVM. O numero e apresentado como “sua casa vale X”, quando o que o algoritmo realmente calculou foi “casas estatisticamente similares a sua, numa janela de vendas recentes, foram negociadas a X”. Sao afirmacoes diferentes. A primeira e uma avaliacao. A segunda e uma regressao sobre os dados disponiveis.
Quando os dados sao ricos e recentes e o imovel e generico, as duas afirmacoes convergem. Quando alguma dessas condicoes falha, divergem — as vezes 5%, as vezes 25%, ocasionalmente mais. Os quatro casos a seguir sao onde a divergencia aparece de forma mais consistente.
Caso 1 — O imovel unico
Os algoritmos detestam imoveis unicos porque a unicidade, por definicao, nao tem transacoes comparaveis pra aprender. Um apartamento padrao de tres quartos num bairro homogeneo e o melhor caso do AVM. Uma casa com terreo convertido, uma ampliacao licenciada em 2017 mas nunca registrada com clareza e um pequeno jardim privado e o pior caso.
O que o algoritmo faz nesses casos e recorrer aos comparaveis mais proximos disponiveis — geralmente imoveis que compartilham duas ou tres caracteristicas relevantes e perdem o resto. Depois faz a media, apresenta uma faixa de confianca e esconde a suposicao por baixo. O vendedor ve um numero limpo. O valor real de mercado desse imovel e determinado por que comprador entra pela porta, o que ele valoriza, e quao fina e a oferta de imoveis parecidos naquele trimestre.
Eu ja vi imoveis unicos vendidos 40% acima de uma estimativa AVM e 30% abaixo. A variancia nao e culpa do algoritmo. E a consequencia de pedir pra um modelo de regressao avaliar algo que ele mal viu. Um corretor que entra naquela cozinha com doze referencias locais especificas e tres avaliacoes presenciais recentes de imoveis proximos sabe coisas que o modelo nao consegue saber.
Caso 2 — O mercado local fino
O AVM assume que seu conjunto local de comparaveis e estatisticamente significativo. Em bairros com baixo volume de vendas — cidades secundarias, vilas menores, alta gama de qualquer mercado — o conjunto pode incluir apenas seis ou oito transacoes na janela relevante. Oito comparaveis nao sao um mercado. Sao uma coincidencia.
Quando voce faz regressao em oito pontos, um unico outlier — uma venda forcada, um inventario, um imovel de prestigio vendido pra um comprador de fora — distorce todo o output. O vendedor nao tem como ver essa distorcao. O modelo apresenta o mesmo numero confiante que produziria num bairro com 800 transacoes.
A conversa a mesa da cozinha num mercado fino e onde os corretores ganham a comissao. Voce nao esta discutindo contra o algoritmo — esta explicando o que o algoritmo nao consegue ver. Vendas recentes fechadas fora do portal. O fato de que duas das oito comparaveis visiveis foram vendas de inventario com preco pra escoar rapido. O perfil de comprador atualmente ativo na area, que determina que tipo de imovel realmente esta se movendo e em que velocidade.
Caso 3 — O mercado em transicao
Algoritmos aprendem do passado. Mercados em transicao — taxas de juros se movendo, regulacao mudando, um grande empregador chegando ou saindo, uma nova linha de metro abrindo — produzem um periodo de seis meses durante o qual os comparaveis de ontem param de prever os precos de amanha. O AVM, por construcao, vai estar atrasado.
Um bairro que acabou de virar acessivel por uma nova estacao de metro, uma cidade que acabou de anunciar uma reclassificacao importante, um mercado que acabou de absorver um movimento rapido nos juros — sao todos locais onde o numero confiante do AVM vai estar errado, e confiantemente errado, por dois a quatro trimestres ate que os dados de treinamento se atualizem.
E tambem o caso mais caro de ler errado pra um vendedor. Num mercado em transicao em alta, listar pelo numero do AVM deixa dinheiro real em cima da mesa — as vezes 8-15% do valor. Num mercado esfriando, listar pelo numero do AVM deixa o imovel parado por meses enquanto cada reducao destroi a alavancagem.
Caso 4 — O outlier de condicao
Os AVM nao conseguem ver dentro do imovel. Veem o endereco, os metros quadrados registrados, o ano de construcao, as vezes um numero basico de comodos — e e so. Nao veem a cozinha reformada, as janelas novas, o problema estrutural, a infiltracao, a falta de luz natural, a vista da varanda, ou o fato que as areas comuns estao paradas em 1987.
Pra um imovel em condicao media pro seu predio e bairro, isso e um erro pequeno. Pra qualquer imovel que se desvie significativamente da norma local — pra cima ou pra baixo — e um erro grande. Um apartamento de 1.500.000 reais com uma reforma de 150.000 feita ano passado nao e um apartamento de 1.500.000 pro comprador que entra dentro dele. Um apartamento de 1.000.000 com infiltracao severa, telhado pra trocar e cozinha de outra decada tambem nao e.
E aqui que a visita fisica do corretor produz informacao a que nenhum algoritmo tem acesso. Os 90 minutos dentro do imovel — e a conversa de avaliacao que a cerca — geram um conjunto de julgamentos que nenhum AVM tem inputs pra fazer. Condicao, acabamento, luz, planta, cheiro, barulho, sensacao da escada. Compradores precificam tudo isso. Modelos nao.
A conversa que ganha a captacao
Vendedores nao chegam hostis. Chegam ancorados. O erro que os corretores cometem e tratar o numero do AVM como um concorrente que precisa ser derrotado. Nao e um concorrente. E o primeiro numero que o vendedor ouviu, e seu trabalho e fazer um numero mais util pousar no mesmo lugar.
A frase de abertura que funciona: “Fico feliz que voce ja olhou pra uma avaliacao do algoritmo — e um bom ponto de partida e me diz que voce fez a licao de casa. Deixa eu explicar o que o algoritmo nao consegue ver no seu caso especifico, e depois a gente compara o que ele produziu com o trabalho que eu fiz antes desta reuniao.”
Essa frase faz tres coisas em doze segundos. Valida a pesquisa do vendedor em vez de atacar. Sinaliza expertise sem arrogancia. E prepara o unico enquadramento em que a conversa a mesa da cozinha funciona — nao “eu estou certo, o site esta errado”, mas “o site foi um ponto de partida, e isto e o que uma avaliacao de verdade inclui”.
Os corretores que ganham captacoes consistentemente contra vendedores ancorados ao AVM nao sao melhores em discutir. Sao melhores em explicar. Nomeiam qual dos quatro casos se aplica. Mostram comparaveis recentes especificos. Descrevem a atividade de compradores que viram nos ultimos 30 dias. Caminham pelo imovel com o vendedor e ligam observacoes ao preco. No final da conversa, o vendedor atualizou a estimativa interna dele — nao porque foi derrotado, mas porque recebeu mais informacao.
O AVM nao vai embora. As expectativas do consumidor de um primeiro numero instantaneo sao agora permanentes. O trabalho do corretor nao e mais ser a primeira fonte de um numero — esse jogo esta perdido. E ser a fonte do numero certo, com o raciocinio anexado, numa conversa que o vendedor nao conseguiria ter com um site. Essa conversa e onde o contrato de captacao se assina, e e a mesma conversa quando os dados de mercado e o preco se contradizem — dados puros nunca sao a resposta; o corretor e.
VALO